Amigos queridos, que aqui se reúnem hoje, em nome do meu pai.
Até uma semana atrás, ele ainda estava entre nós. E saber que ele estava aqui era suficiente para nos sentirmos fortes e confiantes.
Mas chegou o dia de partir, e ele se foi com a mesma dignidade com que viveu.
Para nós, pareciam restar apenas as lágrimas e a saudade.
Mas hoje, ao nos reunirmos para este ato de despedida e louvor a Francelino, fica claro que o único sentimento que nos cabe é o orgulho.
Por tudo o que ele representou para os amigos e para milhares de pessoas que tiveram suas vidas transformadas pela força das suas ideias e do seu trabalho.
E por tudo o que ele significou para a minha mãe – que ele carinhosamente chamava de Latifinha –, para nós, os seus filhos, e para toda a nossa família.
Meu pai contava uma história que revela bem a origem do seu caráter.
Dizia que, ainda menino, em Angical do Piauí, certa vez encontrou uma faca no chão, no caminho para a escola rural onde estudava.
Ao chegar em casa e mostrar ao pai o que havia achado, ouviu dele a ordem imediata: “Se não é sua, volte lá e coloque essa faca no lugar onde você a encontrou”.
A lição nunca foi esquecida e orientou toda a vida que ele construiu.
A vida quase inacreditável de um menino pobre do interior do Piauí, que um dia viu a foto da Praça da Liberdade na capa de um caderno de Geografia e decidiu que ali estava sua vocação e seu destino.
A vida extraordinária de um jovem que superou os limites impostos por sua origem para conquistar as mais altas posições na vida pública do país e no coração dos mineiros.
A vida íntegra de um homem que enfrentou e venceu enormes desafios, sem nunca abdicar dos princípios éticos e morais que o formaram.
Tão forte foi a lição aprendida por Francelino na infância e tão duradouros seus ensinamentos, que continuam servindo de baliza para nós, os netos do vaqueiro Venâncio.
É por isso que hoje, ao nos reunirmos aqui, gostaríamos que este fosse também um momento de reflexão sobre o sentido da nossa existência na Terra.
Francelino nos deixou o exemplo da honradez, do amor à vida, da confiança no futuro e, acima de tudo, da solidariedade que se ergue sobre todas as diferenças.
E compreender, louvar e reproduzir esse exemplo é a melhor homenagem que podemos fazer a ele.
Quero agradecer, mais uma vez, em meu nome e em nome de toda a minha família, às calorosas manifestações de carinho e consolo que recebemos.
A força que veio de vocês tornou mais leve para nós esse momento de despedida.
Aprendemos com meu pai que, se a personalidade é a melhor chave para abrir portas, só o caráter é capaz de mantê-las abertas.
Que tenhamos, então, a disposição permanente de abrir e manter abertas as portas para um futuro mais humano, solidário e feliz.
Esse foi o sonho que deu sentido à vida e à obra de Francelino.
E este é o seu legado.
Obrigada.